segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Vergonha!

“A vergonha tem hoje duas faces em Portugal:
a de uma nova pobreza envergonhada
e a de uma riqueza sem vergonha de espécie alguma.”

(João Paulo Guerra, “Diário Económico”)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Que se faça Natal

Vem aí o Natal.
Dezembro, mês do frio… muito frio!
A cada dia que passa, a tristeza e a revolta invadem-me mais a alma, são o meu pão de cada dia. Imagino as mesas postas, com toalhas alegres e coloridas, cheias de doces, filhoses e outros fritos polvilhados de açúcar e canela. Mesas fartas de saborosos petiscos e carnes variadas. Crianças a correrem pela casa, com os sorrisos alegres de quem nada lhes falta. Elas sabem que as prendas já estão à sua espera, dentro dos embrulhos atados com os laços prateados e dourados. Em cada lareira crepita um lume aconchegante que aquece lares e corações.
E eu… eu passo por um período difícil na minha vida, que nunca pensei possível de me vir a acontecer. Sinto-me impotente para sair deste mundo cada vez mais ruinoso, à beirinha de cair num poço sem fundo. Já perdi tudo o que era possível perder, até a dignidade.

Eu também tive uma família na qual punha todo o meu orgulho. Linda, harmoniosa, que dava gosto de se ver, até ao dia em que a adversidade me bateu à porta e me foi, aos poucos, deixando na rua da amargura.
Vi o sol a desaparecer do meu dia e este precipitar-se numa noite sem fim, quando os primeiros raios da crise deram o seu sinal, numa casa onde nunca tinha faltado nada. E tudo o que tinha vindo a construir, com todo o empenho, se foi desmoronando como um castelo de cartas.

Os meus fantasmas atormentam-me continuamente. Foi o meu desemprego inesperado e algum tempo depois a falência da pequena empresa da família.
Como é que se pagavam as prestações dos carros, da casa, da mobília? Tudo teve que ser vendido, por muito menos de metade do preço de compra original, para pagar as dívidas, e não chegou. O cartão de crédito foi gasto até ao limite. Em vez de uma casa, passou a ser um quarto alugado para dois adultos e duas crianças. As crianças começaram a ir muitas vezes para a escola sem pequeno-almoço e sem nada para o lanche, quando não sobrava nada para lhes dar de comer. E aconteceu a ruptura familiar, pois “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E as crianças foram levadas para uma Instituição porque estavam em risco.

Dizem que uma grande dor sozinha mata menos do que muitas mais pequenas. Não sei, mas talvez... porque as facadas que me têm sido sucessivamente espetadas, me levaram a ir definhando lentamente até que, um dia destes, tudo se poderá vir a consumar definitivamente, por aí, numa qualquer sarjeta.

Agora só a miséria mora comigo, ou eu com ela. Eu sou este corpo à espera de uma qualquer cama ou canto onde afogue a pobreza, onde esqueça as cores gélidas de um frio que se me entranhou nas carnes já decepadas de um espírito que um dia foi luminoso, para ser, em cada dia, protagonista num espectáculo da fome.

E é sempre a mesma coisa todos os anos por esta altura. Lembra-se muito os pobres, dá-se umas esmolas aos pobrezinhos, uns caldos, umas sopas de Natal e depois cada um vai à sua vida até ao ano seguinte, porque já descarregaram a consciência. Como se o pobre só comesse uma vez por ano! Será isto espírito de Natal?
Eu sempre ouvi dizer que Natal é quando o Homem quiser. Mas se calhar, é só mesmo quando o Homem quiser!
Por isso é que os que tem o grande poder, capaz de reverter as condições das pessoas como eu, de vez em quando juntam-se para trocarem impressões sobre assuntos relacionados com pobreza… mas ficam-se pelos discursos e pelas jantaradas obscenas onde isso se discute, com os media a dar cobertura.
Queria que essa comida lhes soubesse a podre e a vomitassem em vez das palavras gastas!

Neste Natal, queria que a pobreza lhes entrasse por todos os orifícios do corpo... por todos os poros da pele.
Talvez que assim tivessem a real percepção do que é a pobreza... e compreendessem um pouco da verdadeira dimensão do Natal.

(M. Fa. R.)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

As crianças não são objectos


No dia 20 de Novembro de 1959, por aprovação unânime, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração dos Direitos da Criança.


Quando a Declaração completou 30 anos, em 20 de Novembro de 1989, a ONU também aprovou a Convenção sobre os Direitos da Criança, um ano depois considerada lei internacional.




Faltará muito, ainda, para que os direitos de todas as crianças sejam respeitados?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Espíritos pobres e pobrezinhos

A minha distinção entre
"Pobres de espírito";
"Pobres em espírito";
e "Espíritos pobrezinhos":

“Pobres de espírito” - os baldos de inteligência, de cultura, de educação; alguém de entendimento limitado, sem criatividade; sem recursos intelectuais; pessoas simplórias, ingénuas e acríticas, sem meios e sem condições para enriquecer o espírito.

“Pobres em espírito” - os humildes de espírito e simples de coração; os que são e que amam, que cultivam a humildade moral. Os que têm um coração de pobre, que se fazem pequeninos por amor aos outros, ainda que grandes em riquezas materiais, mas não apegados a elas, pelo contrário, despidos de ambição e de egoísmo; os que, pobres ou ricos, ou apesar de ricos, têm o espírito desprendido das riquezas materiais. Os que são ricos em qualidades morais, que vêem no outro um igual; que usam de sinceridade, liberdade e total transparência de alma; que procuram enriquecer os seus espíritos com as virtudes das quais se vêem carentes. A modéstia é o seu distintivo.

“Espíritos pobrezinhos” – "doutores" orgulhosos e cheios de arrogância; "loiras", "tias" e afins, "parvos", "tolos", insensíveis e interesseiros; "iluminados" que pensam que sabem muito, mas a quem falta o verdadeiro calo da vida por nunca terem comido "pão que o diabo amassou", ricos em teorias, mas paupérrimos na prática. A estes espíritos ser-lhes-á muito difícil enriquecer porque lhes é insuportável OUVIR o seu semelhante. Aliás, para eles, poucos haverá que lhes sejam semelhantes, tão alto o conceito que têm de si próprios, e tão superiores se julgam, que o que há, para eles, são muitos inferiores. E não se coibem de espezinhar e achincalhar quem consideram inferior, para ver se ficam ainda melhor no retrato.
Destes tenho pena, muita pena... apenas pena!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Riqueza vs Pobreza

A pobreza é fruto das enormes desigualdades sociais, que colocam a riqueza do mundo nas mãos de, apenas, 20% da população mundial.

É uma dor de alma constatar que 80% da população do mundo é pobre ou muito pobre pelo facto de haver uma minoria de muito ricos.

A riqueza em si não é má. Pelo contrário, ela é um bem a que todos têm direito, e que produz sensação de conforto, bem-estar e segurança, tão necessários a uma realização material que todas as pessoas anseiam (salvo, talvez, raras excepções).

Mas a riqueza é escandalosa quando torna o mundo pobre.
É por demais escandaloso o momento actual que o mundo vive, inundado de tanta miséria.

Todo o mundo é pobre e está a empobrecer cada vez mais.
Toda a população é pobre. Uma grande parte materialmente, outra de valores.

Acho que os ricos são muito pobres de valores, quando são os causadores da pobreza material do mundo, quando fortunas são construídas à custa de vencimentos fabulosos, reformas astronómicas, corrupção, exploração do homem pelo homem...

Não me venham cá com coisas!
Toda a riqueza nas mãos de uma minoria não tem nada de honesto!

Só quando os ricos tiverem a honestidade de ser menos ricos é que os pobres poderão começar a ser menos pobres!


«Há pessoas tão pobres, mas tão pobres, que só têm dinheiro!»

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sentir o frio

"Era um inverno, tão frio, tão frio, que os pobres sofriam ainda mais do que o habitual.

O rabino escolheu um dos dias mais gélidos para procurar o único judeu rico do povoado, homem famoso pela sua avareza. Bateu à porta, e foi o próprio que veio abrir. Era, seguramente, o único indivíduo da aldeia a não vestir mais do que uma camisa dentro de casa, tal era a qualidade do aquecimento no seu interior.
- Faz favor de entrar, rabi, está quentinho cá dentro.
- Não, não, não vale a pena, não demoro mais do que um minuto.

E o rabino encetou uma longa conversação com o homem, perguntando-lhe novidades de cada membro da família. O homem batia os dentes, porta sempre aberta, insistindo incessantemente com o rabino para que entrasse, mas este recusava sistematicamente.
- E o primo do seu cunhado, que foi para a cidade, como é que ele está? – continuava o rabino…
O homem estava roxo de frio.

- Finalmente, rabi, qual é o motivo da sua visita? – acabou por perguntar.
- Vim com o intuito de lhe pedir dinheiro para comprar carvão para os pobres da aldeia.
- Pois bem, então vamos entrar, falamos melhor sobre isso no quentinho…
- É que se eu entro, sentamo-nos à lareira, ficamos aquecidos, e quando eu lhe explicar que os pobres têm frio, o senhor não irá compreender. Vai-me dar cinco rublos, quando muito dez. Mas, assim, cá fora, sentindo-se um pouquinho de frio, estou certo de que o senhor vai compreender melhor…

O homem ofereceu cem rublos ao rabino, ficando feliz, quanto mais não fosse pelo facto de poder fechar a porta e voltar a sentar-se junto à lareira."
(Marc-Alain Ouaknin e Dory Rotnemer, in A Bíblia do Humor Judaico, I)

Apetece-me apenas comentar, do que este conto me sugere, e também a propósito do dia de hoje - Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza - que:
pode-se relembrar esta problemática num dia por ano especialmente dedicado a isso;
pode-se pensar muito em ajudar os pobres na quadra do Natal, que não tarda aí;
podem-se até fazer muitas campanhas de auxílio à pobreza ao longo do ano…
mas é muito confortável estar no quentinho!

Se não te aproximares, se não sentires o frio na pele, como é que podes compreender a realidade do pobre?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

No mínimo... um olhar atento à pobreza

* Em cada 100 euros que o patrão paga pela minha força de trabalho, o Estado, e muito bem,tira-me 20 euros para o IRS e 11 euros para a Segurança Social.
* O meu patrão, por cada 100 euros que paga pela minha força de trabalho, é obrigado a dar ao Estado, e muito bem,mais 23,75 euros para a Segurança Social.
* E por cada 100 euros de riqueza que eu produzo, o Estado, e muito bem, retira ao meu patrão outros 33 euros.
* Cada vez que eu, no supermercado, gasto os 100 euros que o meu patrão pagou, o Estado, e muito bem, fica com 21 euros para si.

Em resumo:
Quando ganho 100 euros, o Estado fica quase com 55;
Quando gasto 100 euros, o Estado, no mínimo, cobra 21;
Quando lucro 100 euros, o Estado enriquece 33;
Quando compro um carro, uma casa, herdo um quadro,registo os meus negócios ou peço uma certidão, o Estado, e muito bem, fica com quase metade das verbas envolvidas no caso.

Eu pago, e acho muito bem, portanto exijo:
- Um sistema de ensino que garanta cultura, civismo e futuro Emprego para os meus filhos;
- Serviços de saúde exemplares;
- Um hospital bem equipado a menos de 20 km da minha casa;
- Estradas largas, sem buracos e bem sinalizadas em todo o país;
- Auto-estradas sem portagens;
- Pontes que não caiam;
- Tribunais com capacidade para decidir processos em menos de um ano;
- Uma máquina fiscal que cobre igualitariamente os impostos.

Eu pago, e por isso quero ter, quando lá chegar, a reforma garantida;
Jardins públicos e espaços verdes bem tratados e seguros;
Polícia eficiente e equipada;
Os monumentos do meu País bem conservados e abertos ao público, uma orquestra sinfónica;
Filmes criados em Portugal.

E, no mínimo,
que não haja um único caso de fome e miséria nesta terra.

(Recebido por e-mail. Desconheço o autor)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Nada a fazer?!

«Não posso dar-te absolutamente nada.
Trabalho até de noite pelas mães abandonadas, pelos que não têm casa, pelas crianças abandonadas e doentes. Eu também estou doente e não posso mais. Não me queres tu ajudar? Antes de te matares, não queres dar tu uma mão a toda esta gente que espera?»
Diz Abbé Pierre a um jovem que, acabado de sair da prisão, ameaçava suicidar-se pelo desespero de não ter nada. Nem família, nem amigos que lhe dessem a mão. A sua vida não significava nada.

Por vezes pensa-se que se estendeu a mão ao indigente e ele não a quis agarrar, quando se lhe arranjou maneiras de o internar para recuperação do álcool ou da droga, conseguiu-se-lhe um trabalho, fez-se-lhe uma casa, deu-se voltas para lhe obter o Rendimento social de inserção, e ele prefere continuar a pedir esmola e a viver na rua, ou no mundo da droga. E dizemos que é pobre de espírito, que não tem juízo, que tem vícios que já não consegue corrigir, que não há nada a fazer, não vale a pena. E se calhar não é bem assim em todos os casos.

Talvez tenha ouvido tanta vez: “não vales nada, és um drogado, um bêbado, nunca conseguirás ser alguém”, que se terá convencido de que assim é, e que não vale a pena esforçar-se, pois nunca conseguirá mudar nada. Sempre terá quem lhe dê uma esmola, um prato de sopa…
Além disso, quanto mais tempo durar essa vida mais se acomoda a ela e perde o interesse por mudá-la. Deixa de ter a auto-estima necessária à mudança e bastam-lhe as esmolas de qualquer espécie. E nós queremos que ele mude?! Que ele trabalhe?! Para quê, se não tem necessidade disso?! Se não presta para nada, se não tem utilidade nenhuma?!

Primeiro tem que haver uma mudança interior. E quem quer dar uma mão a esta pessoa, tem que ir nesse sentido da mudança interior. De lhe fazer ganhar a consciência da sua necessidade.

Tem que se deixar de ver o pobre como o culpado da sua pobreza. Até porque quem nunca foi pobre nunca terá condições de ajuizar o que isso é.

Ah!
E aquele jovem que se queria matar, afinal não se matou. Deu conta de que ainda podia ser útil a alguém!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Reflexos de pobrezas

Portugal, de norte a sul, tem vindo a ser vítima, nos últimos tempos, de uma onda de assaltos e criminalidade como nunca antes.

São assaltos a bancos, a gasolineiras... ele é a caixas multibanco, é carjacking... tanto pode ser a uma prateleira ou caixa de supermercado, como à carteira do pequeno e do médio contribuinte, ou aos cofres do Estado.

Há para todos os gostos e feitios.

São grupos, são solitários... são portugueses, são brasileiros, são de outras nacionalidades.

E mata-se por "dá cá aquela palha".

Quem gosta de filmes policiais pode agora deliciar-se com as imagens reais e até em directo.

E discute-se o tema, debate-se, fala-se e fala-se...

e continua tudo na mesma, ou cada vez pior!


Não serão tudo reflexos de pobrezas?!

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