quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

800 000 000 de pobres


"As causas da pobreza e as soluções para a sua erradicação são múltiplas e estão estudadas ao mais alto nível. Mas falta cumpri-las."

"Não podemos baixar a guarda diante da pobreza" (Papa Leão XIV, in: Dilexi te, 12)

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Dia Mundial dos Pobres

(actualização)

«Tu és a minha esperança» (cf. Sl 71,5)
9.º Dia Mundial dos Pobres - 16 de novembro de 2025

8.º Dia Mundial dos Pobres - 17 de Novembro de 2024

7.º Dia Mundial dos Pobres 19 de Novembro de 2023

 6.º Dia Mundial dos Pobres 13 de Novembro de 2022

«Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7)
5.º Dia Mundial dos Pobres - 14 de Novembro de 2021

«Estende a tua mão ao pobre» (Sir 7, 32)
 4.º Dia Mundial dos Pobres - 15 de Novembro de 2020

«A esperança dos pobres jamais se frustrará» (Sal 9, 19)
3.º Dia Mundial dos Pobres - 17 de Novembro de 2019

«Este pobre clama e o Senhor o escuta» (Sal 34, 7)
 2.º Dia Mundial dos Pobres - 18 de Novembro de 2018


  No domingo, dia 19 de Novembro de 2017, por instituição do Papa Francisco, celebra-se o primeiro Dia Mundial dos Pobres, com o lema “Não amemos com palavras, mas com obras”.

1.º

“Senhor, dai pão a quem tem fome /
e fome de justiça a quem tem pão!"
*
Mensagens para o Dia Mundial dos Pobres: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri.index.html
e

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Mais um Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza...

... e ainda cerca de 780 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza.

Exige actuação integrada dos diferentes sectores de intervenção pública.

Assim, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é uma chamada de atenção para a "necessidade de erradicar a pobreza e uma forma de apelar aos Estados e aos respectivos decisores políticos para que tomem medidas para acabar com esta forma de violação dos direitos humanos."
 
Em 2024, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, a 17 de outubro, segue o tema “Acabar com os maus-tratos sociais e institucionais, agir em conjunto em prol de sociedades justas, pacíficas e inclusivas”.
 
A sociedade civil - e cada pessoa - é chamada a unir esforços no sentido de combater este flagelo.

É preciso despertar mentes e corações que parecem cada vez mais dormentes e acomodados. 

O mundo, os pobres do mundo, todas as formas de pobreza, merecem que os que podem, e mandam, se lembrem que o mundo é de todos e não só de quem tem poder. Merecem dignidade, respeito, o direito à diferença e a melhores condições, e não a que ainda os esmaguem de todas as formas e feitios e os privem até da saúde e da vida.

domingo, 19 de novembro de 2023

“A pobreza é um escândalo!”

... lamenta o Papa no dia mundial dos pobres.



"continuamos a ter 780 milhões de pessoas no mundo que vivem abaixo do limiar internacional da pobreza (com menos de 1,90 dólares por dia)".
(...)
"Em 2017, celebrou-se, pela primeira vez, o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco em 2016 no encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Celebra-se todos os anos, no XXXIII Domingo do Tempo Comum".
(...)
"No final de 2022, os números oficiais apontavam para 10.773 pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal, um aumento de 78% em quatro anos. E prevê-se que, este ano, esta percentagem suba exponencialmente."
(...)
"A Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, que tinha como meta acabar com este fenómeno até 2023, vai ser prolongada até 2026, depois de não só ter falhado o objetivo principal como ter permitido o aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo."
(...)
"Quando é que vamos perceber que não estamos a resolver o problema? Quando é que vamos assumir que falhámos?" (...) "Até quando vamos continuar a arranjar justificações? Até onde se pode fechar os olhos?"



segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Dignidade para todos na prática

 

Dignidade para todos na prática” !!!


Já me cansa esta lonjura...


sábado, 16 de outubro de 2021

Construir juntos – Acabar com a pobreza persistente...

Construir juntos – Acabar com a pobreza persistente, respeitando todas as pessoas e o nosso planeta: é o tema para 2021 do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que é assinalado, todos os anos, a 17 de Outubro, desde 1992.

No entanto, está tudo sempre  não digo na mesma (como a lesma) mas  cada vez pior. Nestes tempos em que a pandemia veio acentuar a pobreza ainda mais.

Fala-se muito, escrevem-se Resoluções, há múltiplas Agendas, mas no final das contas tudo não passa de lindas cantigas para boi dormir.

E empurra-se com a barriga para o sector privado, sociedade civil, voluntariado, iniciativas filantrópicas, que vão fazendo o que podem, mas que não têm como atacar o mal pela raiz.

Parece que das mãos de quem tem o Poder sai tudo ao contrário do apregoado com falinhas mansas; e aos pobres é tirado ainda o pouco que lhes resta  até a dignidade  e são atirados para as ruas da amargura.

Este dia, que foi criado com o objectivo de mobilizar decisores políticos, organizações intergovernamentais e não governamentais, bem como a sociedade civil, para corrigirem as causas e consequências da pobreza, pouco ou nada tem trazido de melhorias concretas ao mundo dos pobres – sejam quais forem os temas propostos em cada ano.

Não tenho fé de que este ano seja diferente, e que este dia, com este tema proposto, venha acabar com a pobreza ou contribuir para a sua erradicação. 
Daqui a um ano voltaremos a falar do mesmo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

A outra pandemia


 (do blogue A Vivenciar a Vida)


domingo, 21 de junho de 2020

Carta aberta aos poderes políticos sobre a Pobreza em Portugal

"A pobreza tem há muito em Portugal uma dimensão que a todos deve preocupar e que justifica que os cidadãos unam a sua voz num protesto forte, premente e continuado, exigindo das autoridades do País que inscrevam o combate à pobreza como primeira prioridade. A pandemia do coronavírus acentuou aos olhos de todos a vulnerabilidade dos grupos mais desfavorecidos da sociedade portuguesa, reforçando, infelizmente, que a pobreza é, indubitavelmente, o principal problema do País. É essencial que as entidades sobre as quais recai a responsabilidade de enfrentar o problema não tenham dúvidas em defini-lo como tal - a prioridade das prioridades."

Para: Presidente da República, Presidente da Assembleia da República, Primeiro Ministro, Grupos Parlamentares

quinta-feira, 23 de abril de 2020

“Pandemia da fome”

As previsões do final do ano passado apontavam 2020 como o pior ano desde a Segunda Guerra Mundial.

"265 milhões de pessoas poderão estar em risco de morrer à fome. Poderão ser 30 os países em vias de desenvolvimento a passar por situações de fome generalizada. Em dez desses países, já há mais de um milhão de pessoas no limiar da morte: Iémen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Venezuela, Etiópia, Sudão do Sul, Sudão, Síria, Nigéria e Haiti."
 (...)
Estamos a falar de condições extremas, de estado de emergência – pessoas literalmente a marchar para o limiar da morte à fome. Se não lhes conseguirmos comida, as pessoas vão morrer”.
(...)
 “A Covid-19 é potencialmente catastrófica para milhões de pessoas que já estão presas por um fio”, acrescenta Arif Husain, economista chefe do Programa Alimentar Mundial. 
(...) 
“Nenhuma destas mortes previstas é inevitável”, diz Beasley. “Se conseguirmos dinheiro e se mantivermos as cadeias de distribuição abertas, podemos evitar a fome. Podemos parar isto, se agirmos já”, reforça.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Há fome!


«E de repente tive mais uma ideia do futuro social do nosso país. Ontem no acompanhamento que faço como voluntário na Comunidade Vida e Paz preparei-me para a noite lendo os relatórios das equipas dos dias anteriores, e vi que no Saldanha os números da distribuição de comida aproximavam-se dos 100, sendo que há dois meses atrás eram entre os 30 e 40. Na Av. Liberdade e adjacentes com mais de 30 pessoas, onde outrora eram menos de 20. 
 Enfim preparei-me para distribuir e acompanhar pouco mais de 140 pessoas. Mas infelizmente a realidade foi outra, foram mais de 160 e o futuro não se avizinha bom! 
 Sabemos que nos abrigos de Lisboa da CML os números diários já se aproximam de 200 pessoas, abrigos esses que fecham no momento que terminar o estado de emergência, e assim vão-se juntar aos mais de 500 pessoas que já vagueiam pela capital de Portugal.

Fome, vi muita, as pessoas choram a pensar que esta pode ser uma das ultimas refeições, pois com tantas incertezas têm medo que as instituições que apoiam as famílias carenciadas e pessoas sem abrigo não sejam um poço sem fundo e que um dia não vão chegar para todos, e, que podem ser preteridos por outra necessidade qualquer.
 Por mais que se tente acalmar as pessoas, a verdade é que nem eu sei o que vai ser o futuro, o meu, a da minha família e amigos, e de toda a nossa comunidade. 

 Há fome! 

 Desde o primeiro dia do estado de emergência que tenho notado isso, é uma nova realidade. 

 Volto a ontem, e ontem, vi pessoas que foram pela primeira vez dormir na rua, e outros que para lá voltaram, uns porque já não têm recursos, amigos ou famílias que apoiem, outros porque saindo das prisões não têm casas para onde ir. Sim pessoas que saíram das prisões sem tectos à sua espera, em alguns casos foi uma transferência de um problema de um lado para outro.
 Pessoas sem mobilidade, de andarilhos, novos, velhos, não há discriminação.
 Duas conversas que me deitaram o coração abaixo, sr X, seropositivo, na rua há vários anos, dizia: “COVID? Isso como doença não nos faz medo, estando na rua há vários anos eu e as outras pessoas que cá andamos se não morremos do frio, da chuva, do calor, das doenças dos companheiros de cartão, não vamos certamente morrer disto, O COVID vai nos matar porque vamos ser esquecidos e estamos no fundo das preocupações das pessoas. 

 Senti-me revoltado porque sei que é mentira, mas também é verdade!

 Outro dizia que queria ir para o abrigo, mas questionava, mas se lá há maior concentração de pessoas, não aumenta o risco de ser infectado?
 Estas pessoas podem não ter tecto mas têm a mesma sensibilidade ao risco e ao futuro que praticamente todos nós temos, ser Pessoa Sem Abrigo não é um atestado de estupidez ou de inércia, é infelizmente uma mistura de infelizes acasos da vida.

 Onde durante anos na Av. Liberdade, havia lagos com patos e cisnes, há agora pessoas a viver dentro das casas dessas aves, é difícil de imaginar, mas estão lá vários num espaço curto e desumano.

 Partilho ainda convosco que já de madrugada quando falava com as outras equipas, veio à partilha que dois menores depois de verem que havia terminado a distribuição na gare do oriente, foram ter com a equipa a pedir comida, pois em casa com os pais desempregados e os outros irmão menores já não havia comida e de uma forma discreta e envergonhada pediram se podiam comer. 

 A fome já não é só na rua, é também dentro das nossas casas. 

 Não quero com esta mensagem deixar as pessoas melindradas ou a sentirem-se mal, mas sim quero que todos saibam que há uma realidade e vamos ter que viver com ela e acima de tudo não podemos fechar os olhos, porque sim, há fome em Portugal!

 Equipa B2-3ª »

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Investigação para reduzir a pobreza mundial leva a Prémio Nobel da Economia


A Academia Sueca atribuiu o prémio Nobel da Economia a Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer pela criação de métodos experimentais para avaliar a melhor forma de reduzir a pobreza.

«Segundo a Academia [Sueca], a abordagem desenvolvida por estes investigadores “identifica formas eficientes de reduzir a pobreza mundial”, ajudando a identificar as causas da pobreza, os efeitos das políticas em curso e facilita a análise custo-benefício das diferentes políticas para reduzir a pobreza.» 

Haja esperança!

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

“os sistemas alimentares não estão fazendo seu trabalho”

« as famílias com menos recursos tendem a substituir alimentos nutritivos por outros mais baratos, mas de menor qualidade, algo que acontece nos países ricos e cada vez mais nos pobres.»
Fome e obesidade coexistem em cada vez mais países, afirma ONU.

sábado, 11 de agosto de 2018

"Desidealizar a Pobreza"

"Nada do que possa dizer é absoluto. Tudo o que posso ver com os meus olhos pequenos está longe de ser tudo, de ser toda a realidade. E, no entanto, há já as primeiras impressões que ainda não registei em foto ilustrativa por pudor.

Estou neste momento a viver junto a um dos bairros de lata de Nairóbi - Kangemi - e a colaborar numa clínica comunitária pertencente ao projecto Lea Toto. Estas clínicas fazem o diagnóstico de crianças portadoras de HIV e acompanham crianças e famílias de um modo integral procurando garantir o cumprimento do tratamento e o crescimento saudável dessas crianças.

Nos caminhos já feitos neste bairro vi a alegria dos mais novos ao saudar o muzungo (branco) que por lá passa, How are you? repetem todos os dias. Nesses mesmos caminhos já me perguntaram logo ao começar o dia e sem introduções se era feliz, já fui abraçado por um bêbado eufórico que entre o riso de vizinhos me queria levar à força a sua casa. Já vi, por isso, sinais de alegria. Já vi olhares de adolescentes com mais força e futuro de que o vírus que, sem culpa, carregam. Mas já vi e senti muita outra coisa...

Já vi olhares carregados, corpos frágeis e doentes, já me enlameei nas estradas de terra, e vi a dignidade de gente bem vestida mas nem por isso menos batida pela vida. Já senti os cheiros, e percebi às mágoas, a desconfiança e a desesperança. Ninguém escolheria viver aqui. E viver aqui - sem ser dos piores bairros de lata - é como - disseram-me - é viver para 30 a 40 % da população desta pais. Não voltarei a repetir a frase “vivem assim mas às tantas são mais felizes do que nós.” Não há felicidade na lama e no estômago vazio. Não há felicidade em viver ao lado de mansões que são como condomínios fechados, de lhes varrer os quartos e, depois, ao chegar a casa, ter que descalçar os sapatos para não encher de terra suja 3 ou 5m2.

O mundo não pode ser isto. A vida não é isto. A vida é a força dos que aqui lutam, trabalham e vivem. Mas essa força não pode ser a desculpa da pobreza, o fatalismo. Essa força é a resistência contra o que é indigno é a cura de tantos rostos cansados.

Estou aqui de passagem, quase sem tempo para encarnar. Mas sei que há muitas milhas a percorrer, onde quer que possa vir a estar. A primeira é não idealizar a pobreza." José Maria Brito SJ.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Da vontade... ou falta dela

"Nós temos tecnologia, temos os recursos, nós temos o conhecimento... para acabar com a pobreza extrema... se... se nós tivermos vontade."

 

quinta-feira, 22 de março de 2018

Vergonha pela pobreza existente em Portugal


 «É uma vergonha nacional sermos, em 2017, e agora já em 2018, das sociedades mais desiguais e com tão elevado risco de pobreza na Europa. Eu tenho vergonha.»
 (O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa)


Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, "é urgente juntar ao crescimento e ao emprego uma estratégia autónoma nacional de combate à pobreza, para a sua erradicação, não esperando que um dia os avanços da economia cheguem àqueles que, nessa altura, ou não pertencerão já ao número dos vivos, ou cuja pobreza é tal que toda a recuperação é inviável".

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Morrer de FOME no mundo de hoje

20 milhões de pessoas no Iémen, Somália, Sudão do Sul e Nigéria em risco de fome. Só no Iémen são perto de sete milhões de pessoas incapazes de sobreviver sem algum tipo de ajuda alimentar. 


Todos podem apoiar a luta contra a fome hoje, indo até www.wfp.org e fazendo uma doação que salva vidas.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Podemos começar por ser civilizados




domingo, 16 de outubro de 2016

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza lembrado este domingo


Cidade do Vaticano, 16 out 2016 (Ecclesia) – O Papa Francisco referiu-se hoje no Vaticano à Jornada Mundial pela Irradicação da pobreza, que se assinala esta segunda-feira, e afirmou que é necessário “lutar em conjunto contra a pobreza” e implementar políticas que promovam o trabalho.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desigualdades e metástases


(in: Como o Pokémon Go ajuda a explicar por que o Brasil é um país pobre)


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

- Tenho fome.

13 de Dezembro de 2013 · Funchal

Caros senhores do Governo: ontem, ao sair do autocarro, vi uma menina. Rosto de 15, corpo de 10. Sorri para ela, dois segundos e segui caminho. Veio ao meu encontro: mão estendida e olhos de vergonha no chão. Perguntou se não tinha moedas. Eu, que estou farta que me venham pedir nos estacionamentos dos supermercados e a cada esquina do Funchal, endureci a voz e questionei-a para quê queria o dinheiro. 
- Tenho fome.
Fiquei eu envergonhada. Muito.
- O que queres comer?
- Tanto faz. Pode ser pão.
Disse-lhe para vir comigo. Ela veio, aos pulinhos, sem dizer nada. Levei-a ao Pingo Doce, fiz-lhe um prato decente e sentámo-nos. Mastigou sem saborear, sem respirar. Disse-lhe três ou quatro vezes que podia comer devagar, que aquilo era dela, para ela. Mas só nas últimas garfadas vi-a realmente desfrutar da comida: já estava com o buraco da fome tapado e podia, então, experimentar os sabores com calma. Deixei-a acabar para conversarmos. Disse-me ter nove anos.
Caros senhores do Governo: nove anos, às oito e pouco da noite, no Inverno, sozinha, na rua. Porque tinha fome.
- Onde estão os teus pais?
- A minha mãe está em casa. O meu pai está em “Jer” (presumo que seja Jersey).
- E estão difíceis as coisas em casa?
- Sim. A minha mãe costumava fazer limpezas mas agora já não há muitas casas para limpar e então ela só vai a uma. E o meu pai foi trabalhar para “Jer” mas não tem conseguido mandar dinheiro estes últimos tempos.
- E tens irmãos?
- Sim, cinco.
- Assim pequenos como tu?
- Tem um com dois, outro com quatro, outro com sete, outro com treze e outro com quinze.
Olhei melhor para ela. Era bonita; lindíssima se penteasse o cabelo. Tive medo. Caros senhores do Governo: nove anos, à noite, na rua. Uma menina com fome, acessível, necessitada. Tive muito medo.
- E eles também pedem dinheiro?
- Sim, cada um tem que cuidar de si, não é?
Não, não é. Não deveria de ser. Caros senhores do Governo: as crianças são para serem cuidadas.
- Costumo pedir a quem parece simpático – continuou. Sinais de alerta na minha cabeça.
- Sim, mas há pessoas que parecem simpáticas mas depois fazem coisas más. Por exemplo, há pessoas que só ajudam se lhes derem algo em troca. Já te aconteceu?
Ela pensou. E eu agoniava por dentro.
- Houve uma vez que uma vizinha pediu-me para levar muitos sacos ao lixo e deu-me dois euros.
Sorri-lhe.
- Eu sei que há homens que querem sexo e dão dinheiro – disse-me, com a voz mais baixa.
Senti uma pontada na cabeça.
- Como sabes?
- A minha mãe disse que podíamos roubar e pedir. Roubar só a quem tiver mais que nós. Mas nunca fazer sexo. Está sempre a dizer isso. É bastante chata porque eu já lhe disse que nem sequer sei fazer sexo.
Caros senhores do Governo: já imaginaram o que é uma mãe dizer aos filhos que roubar e pedir pode ser? Já imaginaram a angústia desta mãe, todas as noites, a pensar que os filhos, por precisarem, podem cair no vício da prostituição?
- Já sabes que as mães são assim porque se preocupam connosco.
- A tua também te diz para não fazeres sexo pelo dinheiro mesmo que tenhas muita fome?
Caros senhores do Governo: o que se responde a isto?
- Sim, diz….
- Então é chata como a minha – sorriu.
Nesse momento, começou a mexer-se na cadeira. Perguntei-lhe se queria ir embora. Disse-me que sim, antes que ficasse muito tarde. Pedi-lhe para vir comigo. Comprámos pão de forma, manteiga e leite. O saco quase que era maior que ela – mas não do que o sorriso e o brilho nos olhos.
- A minha mãe vai ficar contente! – e olhou-me demoradamente. – Gosto muito dos teus brincos.
- Ah, gostas?
- Sim – levou a mão à orelha. – Eu tinha uns dourados em pequena, que a minha madrinha deu-me, mas a minha mãe teve que vender. Fiquei menos vaidosa. A minha mãe diz que essas coisas agora não importam.
Tirei os brincos e coloquei-os nos buraquinhos quase fechados dela. Caros senhores do Governo: eu tinha diante de mim uma menina que deixara de ser menina para crescer à pressa nas curvas da crise, palavra que já me causa vómitos. Ela suspirou.
- Vou guardá-los – e tirou-os à pressa. – Para quando casar.
- Mas isso ainda falta muito tempo – admirei-me. – Já pensas nisso?
- Eu sei que falta algum tempo – disse algum e não muito. - Mas é menos uma coisa que tenho que comprar. Mas ele tem que ter dinheiro porque não quero que os meus filhos passem fome. Quero ter dois filhos – e espetou-me dois dedos diante dos olhos.
Caros senhores do Governo: uns brincos rafeiros, de plástico, vermelhos. Para o casamento de uma menina que já não era menina e que tinha o plano bem traçado de casar com um homem rico.
- Olha, tu queres que eu fale com umas pessoas para tu e os teus irmãos poderem ir para um sítio seguro enquanto a vossa situação está assim?
Vi o pânico na expressão.
- Não! A minha família é feliz. Não quero separar-me deles. Isto vai mudar. O meu pai prometeu – meteu a mão na cintura, muito ofendida. – O meu pai faz sempre o que diz.
Caros senhores do Governo: eu espero que vocês permitam que este pai cumpra o que prometeu à filha. É que vocês já lhe tiraram tudo: deixou de ser criança e de ter os pais juntos, obrigam-na a mendigar na rua e a passar fome. Não lhe tirem, também, o orgulho em ter um pai que cumpre o que promete.
Caros senhores do Governo: dizem as mulheres da minha família que a vida é uma rodinha. Que o que fazemos aos outros, seja de bom ou de mau, volta sempre – mas sempre mesmo. Portanto, algum dia, em qualquer circunstância, em alguma vida, os senhores vão receber aquilo que estão a dar: miséria, desconforto, sofrimento e a impossibilidade de serem quem querem ser.
Caros senhores do Governo: só vos desejo que a vida seja muito cruel convosco. 

Cumprimentos,
Valentina Silva Ferreira
(https://www.facebook.com/valentinasilvaferreira/posts/572834242807330?fref=nf&pnref=story)

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